Se
se por acaso
a gente se cruzasse
ia ser um caso sério
você ia rir até amanhecer
eu ia ir até acontecer
de dia um improviso
de noite uma farra
a gente ia viver
com garra
eu ia tirar de ouvido
todos os sentidos
ia ser tão divertido
tocar um solo em dueto
ia ser um riso
ia ser um gozo
ia ser todo dia
a mesma folia
até deixar de ser poesia
e virar tédio
e nem o meu melhor vestido
era remédio
daí vá ficando por aí
eu vou ficando por aqui
evitando
desviando
sempre pensando
se por acaso
a gente se cruzasse...
Encantado (sempre) por Alice Ruiz
segunda-feira, janeiro 11, 2010
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Marcadores: Alice Ruiz, poesia
Metas para 2010
quinta-feira, dezembro 31, 2009
Trabalhar com artesania
Namorar os documentos
Ter mais atenção nas coisas
Viajar
Elocubrado por Lucas às 4:00 PM 0 comentários
Em Salvador....
sábado, dezembro 26, 2009
Tempo nublado e com cara de chuva... frio que me fez acordar cedo.
Mas é verão! Um sábado de praia... o que não deveria acontecer é ficar cinzento o céu de Amaralina. Se bem que desde ontem o céu está bem cinza e a brisa passou de fresca para fria. Não me incomoda - até gosto de um ventinho mais frio (para os padrões baianos, claro). As árvores (as poucas árvores de Amaralina) estão dançando, as cortinas da sala estão descontroladas. O prédio ao lado é de cor bege. Combinado ao ceú cinza faz tudo parecer a atmosfera de um sonho antigo. Nessa paisagem meio sem cor, apenas duas coisas teimam em ficar: uma camisa laranja na janela do apartamento vizinho e uma borboleta no muro do prédio ao lado. Todo o resto me remete a uma fotógrafia em sépia. Nessas horas, corre-se o risco de "quintanear" e assinar qualquer coisa com a data de 1774, já que fica a sensação de que tudo faz tanto tempo.
Hoje é dia de cuidar de coisas domésticas, sair com a família...
Ontem também foi um dia meio átipico, aliás, os dias desse ano podem ser descritos com essa palavra - para o bem e para o mal. 2009 pode ser descrito também, e pelo que percebi para muita gente além de mim, como o ano das encruzilhadas, de muito desencontro, reencontro, despedidas e encontros organizados pelo acaso. De desafios, de começos, recomeços, de confrontos. Um ano que pediu uma maturidade e jogou na minha cara (e na de muita gente) as limitações.... superar essas dificuldades ficou colocado como uma necessidade de sobrevivência e não como escolha. Seguir adiante, seguir sem medo é, como diz a amiga Juaquina, "tarefa quase impossível". Mas, no entanto, ficar é ainda mais doloroso.
Esse ano algumas de minhas certezas mais sólidas foram abaladas de modo profundo e minhas dúvidas saíram do estágio de fluidez e deslizamento para algo fixo. Líquido e certo.
Deus (ou como você preferir chamar sua Divindade predileta) abençoe quem inventou essa contagem (que mesmo boba) nos permite ordenar a vida em segundos, horas, dias, meses e anos, como se a passagem das horas pudesse ser medida por um relógio ou por um calendário, nos permite dizer que "ano que vem tudo será diferente, será melhor, mais feliz", nos permite ter esperanças e sonhos.
O ano que se mostra diante de mim, embora se exiba cheio de possibilidades em um nível quase narcotizante, já se apresenta, contudo, como algo passado, um amanhã que já é ontem. É tudo tão acelerado e tão cheio de luzes, brilhos, barulhos.... Por que nós aceleramos a nossa vida, como se acelerar resolvesse os problemas? Os carros devem ficar atrás dos bois.
O ano nem chegou e não sei se devo ter esperanças ou se devo desde já me decepcionar - ou criar esperanças falsas, temerosas. Prefiro ter as esperanças, mesmo que isso implique em pagar um preço mais alto, em me arriscar mais. De fato, a única certeza é que não dá pra ficar parado - a vida não espera. Já posso celebrar ter chegado até aqui em um ano tão cheio de reviravoltas, mudanças de rumo, quizilas, gíngis, consumições e tanficâncias. Quem sabe onde eu estarei daqui há um ano? Com quem? O que foi bom vai permancer aqui... mas há como saber precisamente o que é efetivamente bom ou ruim?
Os anos passados também viram tanta coisa passar (coisas boas, coisas ruins). Eu fui com eles, voltei com eles. Agora eu estou aqui.
Esse, repito, foi um ano que exigiu das pessoas superar problemas, vaidades, medos, vergonhas, limitações diversas, testou a humildade. Creio também que os preços serão cobrados em breve, assim como em breve virão as recompensas... as recompensas também cobram um preço, disso não se pode esquecer.
A encruzilhada está aí, não se pode ficar parado diante dela - afinal estamos vivos. Há quem pense que é a porta que escolhe o homem e que o caminho é sempre estreito, mas que alguns ficam cegos e enxergam-no como sendo largo. Há quem diga que é sempre o homem que escolhe o caminho. Há quem diga que não há caminho do meio. Há quem diga que só há o caminho do meio.
Não dá pra pensar, não dá pra respirar, só é permitido seguir em frente... sem nunca fechar as portas, mas sempre queimando as pontes. Sem ensaios, sem rascunho.
Eu vou ao seu encontro.
Elocubrado por Lucas às 8:19 AM 0 comentários
Marcadores: Cotidiano, Digressões, pensamentos desconexos
sexta-feira, dezembro 25, 2009
The fact that you are married, only proves you're my best friend.
(Pale Blue Eyes - Lou Reed)
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Me chame pelo meu nome
Me olhe nos olhos
Me desconcerte
Me desarme
Ignore minha guarda alta
Ignore minhas cicatrizes
Ignore meus medos
E meus pés no chão
Me torne outra vez um menino - me faça o seu menino
Me faça cafuné no final da tarde
Veja um por-do-sol comigo
Me tranquilize no meu despero
Me dê colo depois de um pesadelo
Apareça nos meus sonhos
Esteja comigo quando eu dormir
E me abrace quando eu acordar
Elocubrado por Lucas às 8:58 PM 0 comentários
Marcadores: poesia
He couldn't stay
He's back home, now.
Far away from where he wants to be
But either way
They belong together.
Will they ever meet again?
Elocubrado por Lucas às 4:02 PM 0 comentários
Correu o rio em meu rosto
Então, levai, Aqueronte,
Mais uma alma em vosso leito!
Afogai o corpo com vossa água
Apagai com água as feições
Calai a boca e silenciai a voz
Ensurdecei os meus ouvidos.
No fundo, na areia, fica a saudade
Nas margens um tímido adeus.
E que morra em vós toda a dúvida e toda a certeza
Quem o rio leva?
Já não me importa.
Eu já estava morto.
Elocubrado por Lucas às 3:49 PM 1 comentários
Um baiano viajante
sexta-feira, dezembro 18, 2009
Do alto de minha arrogância, acredito que a vida é pontuada - como diria o sábio Barros de Alencar - "por pequenas coisas", pequenas experiências: comer aquele risotto acompanhado de pessoas bacanas, cozinhar para sua família, assistir aquele filme, um beijo... mas acima de qualquer coisa, acho que a vida é pontuada pelas nossas viagens.
Seja para a Índia ou para a cidade ao lado, viajar implica em se despir de muita coisa e se vestir
de outras, já que "em Roma, fazemos como os romanos". É importante o desapego de nossa identidade... risos. Você sai da Bahia e, por exemplo, perde o nome e sua história de vida e se torna simplesmente "o baiano". Claro que até o final, devido às experiências partilhadas no intervalo de tempo que você vive fora, te devolvem o nome - ou até te dão outros - e te conferem uma (nova) história e aceitam a sua história de vida - com todos os filtros e bloqueios, lógico.
O mais importante, a meu ver, é que quando viajamos, nos é permitido alterar radicalmente a rotina, inverter as ordens. Alterar a rotina permite vê-la com outros olhos, percebê-la maior ou menor, simples ou complexa, terrível ou insignificante. De um modo ou de outro, ela é vista no todo - independente disso ser uma coisa ruim ou boa. Só por isso, viajar é algo fundamental para continuar se sentindo vivo, independente de onde ou dos motivos. Se volta diferente de uma viagem, assim como nos transformamos depois de um livro, de um filme ou de um disco. A viagem é capaz de potecializar também essas experiências.
Não se sabe com precisão qual o melhor momento da viagem - há quem diga que é a antecipação, a ansiedade; outros julgam ser mais importantes as experiências vividas e partilhadas nesse intervalo de tempo (aliás, o tempo, quando viajamos, parece ficar suspenso). Alguns votam pela saudade do que ficou e de quem ficou lá no outro porto; outros preferem o retorno, o reencontro. E isso vale para qualquer viagem - trabalho, férias, peregrinação religiosa.
Não consigo perceber com clareza qual o melhor momento, já cada viagem é como se fosse a primeira. Eu penso que a transformação se inicia (seja isso uma coisa boa ou não - isso não é relevante) no primeiro momento em que ela se materializa na forma de um desembolso financeiro para comprar uma passagem (o nome não poderia ser mais preciso) . Nesse momento se projeta tanta coisa... negociamos com os sonhos, com os nossos pés que teimam em ficar no chão (ou vice-versa) e com o mundo. O que levar na bagagem, o que não levar, quais as marcas, quais as idéias... quem se vai conhecer, quais os sabores, os cheiros, os perigos...
Toda viagem nos leva ao desconhecido, e consegue - mesmo que não se queira - superar "o muro e o abismo" que dele nos separa (como já dizia Clarice Lispector). Uma vez superado esse muro não somos mais quem fomos um dia - uma parte ficou olhando o abismo, outra caiu e outra conseguiu chegar do outro lado. Quem volta encontra consigo, mais do que os amigos, família, casa e rotina. Quando eu volto de uma viagem e me olho, mesmo que ao acaso, em um espelho, eu já percebo as (novas) marcas e vejo o que ficou para trás... mesmo que algo que ficou para trás teime em ficar. Além de fotos, presentes, trazemos essas marcas.
A última viagem que fiz foi ocasionada por um profundo desejo de superar problemas que eu - inocentemente - dei maior relevância e poder, por uma vontade de respirar e de aprender, mas acima de tudo, para avaliar e reavaliar. Fui sem antecipar. Fui sem restrições e de peito aberto.
Foram mais de 30 dias de experiências inesquecíveis, de grande aprendizado, de conselhos... eu observei muita coisa com bastante atenção (o que é algo relativamente difícil para mim), andei muito... conheci pessoas bacanas, cozinhei (e aprendi a fazer umas coisas de comer com lágrimas nos olhos), alimentei o nerd que vive dentro de mim assistindo clássicos da ficção científica.... voltei diferente - outra vez. Eu fui de um jeito e voltei melhor. O mais interessante é que em minhas duas despedidas no final dessas férias (farra um dia e jantar no outro), o adeus foi uma palavra condenada por mim... sequer veio em minha cabeça. Será que eu estou mudando até o que achei ser minha sina, dom e maldição? Se for, é bom.
Mesmo assim, dessa vez eu voltei faltando um pedaço...
Isso também é bom. Espero, muito em breve, retornar e pegar essa parte de volta.
Elocubrado por Lucas às 3:44 PM 0 comentários
Marcadores: viagem
sábado, dezembro 05, 2009
Foste tu em princípio um nome
Depois verbo: palavras e voz
Em seguida um rosto
Por fim, corpo
Dois corpos.
Elocubrado por Lucas às 12:36 PM 1 comentários
Eu passei umas tardes em itapuã
quarta-feira, setembro 23, 2009
Depois de um século e meio sem postar, eis que o vosso humilde missivista retorna tal qual o filho pródigo.
Este ano que vivemos tem sido sui generis. Isso no bom e no mal sentido, mas como diz o sábio eremita de Botafogo (sim, tio, é de você que estou falando), a realidade é mesmo esse "colapso de pobabilidades e possibilidades" e a graça é buscar formas de resolver e lidar com os desafios e as surpresas, sejam elas boas ou ruins.
Há mais ou menos uma semana eu terminei um trabalho e para minha surpresa, dois amigos meus que moram em Angola apareceram por aqui por Salvador. Pronto: foi o suficiente para eu tirar uns dias de folga, aproveitar pra estudar um pouco e, acima de tudo, relaxar, dormir, ouvir e cantar sambas antigos até a madrugada, rir. Coisas que eu estimo muito e nos últimos tempos me foi privado por conta das circunstâncias.
O local escolhido não poderia ser mais oportuno: Itapuã. Para quem não conhece, Itapuã é um bairro famoso, cantado por Caetano, Vinicius, Dorival, começou como uma colônia de pescadores, já foi um antigo complexo de rios e lagoas (aliás, salvador era um grande complexo de rios e lagoas), é bastante afastado do centro da cidade e só foi urbanizada em 1980. Era um bairro de veraneio, imaginem. É tão distante do centro que algumas pessoas até hoje dizem que "vão na cidade" quando precisam sair de lá.
Já morei em Itapuã e devo confessar que mesmo gostando de lá, algumas situações, como se diz aqui na bahia, eram verdadeiras consumições! Era uma atrapalhação sair e chegar! Horas, horas... pegar um taxi era impensável!
Exatamente por causa disso, Itapuã é um universo paralelo. O tempo corre de um jeito diferente (mais lerdo, eu diria), é como se fosse uma ilha, mesmo com todos os problemas de uma cidade. Lá tem tudo: mercados, bancos, lojas de todas as familias, gêneros, filos e espécies, restaurantes de todos os gostos e bolsos, praia, acarajé, samba, pagode, reggae, axé, rock, arrocha... Destaque para as coxinhas: coxinhas com massa de batata do "Kibe do Carmel" e do "Rei da Coxinha", esse último oferece ainda coxinhas de aipim com carne do sol e coxinhas exóticas de provolone com calabresa (tem uma franquia em Itinga também, lá na praça dos carangueijos - aliás, foi lá que provei essa iguaria incrível!).
Lá tem também um depósito que entrega cerveja, refrigerante, água, gelo, carvão e... cigarro! Imaginem? Que beleza! Acaba com aquele climão na festa quando algum desses itens acaba e aquele grupinho (ou aquele individuo) tem que sair para comprar mais. Para os que dispõem de um carro é ruim ma non troppo, mas e os que "andam de a pé"? Esse depósito é uma excelente sacada... qualquer dia desses passa no "Pequenas Empresas Grandes Negócios".
Outra coisa bacana que me ocorreu foi que puxaram conversa comigo (dessas do nada, em bar, sacam?), coisa que nunca mais me aconteceu. Conversas bobas, geralmente falando de infortúnios tragicômicos de si ou de outrem, mas foi bacana. Estava eu na vendinha da rua comprando mais umas cervejas, quando me perguntam: "Você não concorda comigo, meu jovem? Faria o quê no meu lugar? Eu vi uma senhora de 80 anos com um rapaz assim da sua idadem novinho... perguntei como vai sua vó e o cara me respondeu: 'é minha esposa'. Ahh, você queria o quê?" E daí a conversa rendeu, cada um relatando as suas experiências e rindo dessas bobagens. Me apressei com as cervejas (que troquei porque elas começaram a esquentar e na casa que eu estava o nosso freezer era um simpático iglu de isopor).
Quem mora lá e explora esse estilo de vida com certeza vive mais, ou vive com uma qualidade de vida melhor. Não sei se consigo me acostumar, gosto de ambientes mais rápidos e um tanto caóticos, mas é uma boa conseguir me refugiar sem precisar viajar ou sair em retiro espiritual. Agora, quem mora lá dificilmente sai do bairro (a não ser para trabalhar) e quando sai vai para perto (Lauro de Freitas, Itinga, São Cristóvão, Piatã, Praia do Flamengo, Stella Maris, Patamares - todos muito próximos). São 200 mil habitantes. É uma cidade.
Passar umas tardes e noites em Itapuã foi um presente inesperado, mas foi exatamente a lerdeza (não aquela das piadas de baiano, por favor, mas a tranquilidade de um lugar antigo e que ainda conserva algumas coisas de interior e de vila de pescador). Me fez bem.
Cheguei na terça-feira, de mala e tudo. A casa ainda não tinha energia elétrica, ficamos todos a luz de velas e de lanternas de canivete suíço (made in bahia, i guess ha-ha!). Mas como estava todo mundo naquela maresia, estava bom. A luz chegou só na sexta-feira. A farra envolvia apenas cinco pessoas (pensando bem, eram cinco pessoas com cinquenta dentro delas ha-ha), mas rendeu bastante. Haja samba antigo, James Brown e Fella Kuti. Até Elizeth Cardoso (a divina, como diriam os cariocas) com o "Barracão no morro" e "Renascer das Cinzas" a gente ouviu - incrível o que um ipod, uma caxinha de som e pilhas (muitas delas) podem fazer.
Posso dizer que tentei mandar todo o stress para o espaço. Por alguns instantes tudo estava perfeito: eu cantei, sambei e ri. E foi bom. Entrei um caco, mas como diria o caro martinho, "sambar de azul e branco é o nosso papel".
Vamos renascer das cinzas
Plantar de novo o arvoredo
Bom calor nas mãos unidas
Na cabeça um grande enredo
Ala dos Compositores
Mandando o samba no terreiro
Cabrochas sambando
Cuica roncando
Viola e pandeiro
No meio da quadra
Pela madrugada
Um senhor partideiro
Sambar na Avenida de azul e branco
É o nosso papel
Mostrando pro povo
Que o berço do samba é em Vila Isabel
Elocubrado por Lucas às 12:21 AM 2 comentários
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