Uma das coisas que mais me atrái nos meus trabalhos é a possibilidade de viajar. Gosto muito de conhecer luagares novos, pessoas novas, além de que o olhar e os ouvidos de turista ajudam muito na minha coleta de dados hehehe. Fico na minha olhando as pessoas passando, conversando, bem atento aos sotaques e as idiossincrasias (não gosto muito desta palavra, mas não achei outra para colocar no lugar). Sempre que viajo eu volto com muitas histórias para contar, bastante surreais em sua maioria. Desde 2006, quando pela primeira vez um projeto que eu escrevi foi aprovado em uma seleção pública, a viagem era toda especial e eu não vou negar, eu "se sentia até gente". Quando estive no Teatro Sesi Rio Vermelho em 2007 viajei algumas vezes também. Já tive o prazer de viajar dentro da cidade mesmo e mergulhar nos bairros. É incrível como não se sabe nada, não de bom nem de ruim dos lugares onde se mora. Trabalhar em uma área que exige o deslocamento espacial e ainda que tem como objetivo promover a alegria dos outros é muito bom, mesmo sendo cansativo, estressante, cheio de riscos, e algumas vezes se apresentar como um campo minado ou ainda mesmo como uma bomba prestes a explodir a qualquer momento.
Essa foi a segunda vez que vim para Serrinha. Da outra vez eu vim ouvindo uma banda chamada LCD Soundsystem e outra chamada Suburban Kids With Biblical Names. Dormi basicamente todo o percurso. O ônibus, mesmo sendo comercial era razoavelmente confortável. Também, o conforto acabou ali... Tive um teaser do que seria meu dia assim que eu cheguei: fui abordado e amaldiçoado por uma cigana e foi uma indaga dispersar aquela figura: lancei os óculos escuros, aumentei o som e fiquei fazendo palavras cruzadas, uns 10 minutos depois ela saiu à francesa. Encontrei o pessoal daqui que se associou ao projeto, foi tudo rápido e super tranqüílo... mas assim que fiquei sozinho... fui almoçar em um PF bem bacana aqui (uma dica: freqüentem PFs... é bom e barato!) e tava lá, na minha. Que feijão delicioso! Frequinho, do dia, com caldo no ponto... ê laiá!... Enfim, tudo ia muito bem até que ouvi um grito: "você é patético, é???!!"sim, era com este missivista que uma mulher estava gritando... foi o bastante para o restauramte parar o que fazia imdeiatamente e começar a me olhar (e rir discretamente para não chamar a atenção da maluca, ou como se diz em bom baianês: "pra não sobrar pra eles"). Ela, não satisfeita, continuou: "cadê sua filha, sua mulher, sua mãe, seu irmão? Você é maluco, é? comendo sozinho uma hora dessas?"... eu, numa altura dessas já queria me afogar no meu suco de mangada ou me esconder dentro de um grão de feijão... mas minha saída foi a melhor: me fingi de louco também e repeti tudo que a maluca dizia ou falava coisas sem sentido (com uma puta raiva e uma vergonha maior ainda!)... ela saiu, voltou, continuou procurando frete, mas logo achou outras pessoas pra perturbar e desistiu de mim. O melhor foi a explicação que eu ouvi: "Ligue não, esse menino... ela é assim mesmo. Ela é depressiva, toma remédio controlado, mas de vez em quando descontrola e fica assim, toda surtada." E eu só estava aqui há pouco mais de duas horas... ainda vaguei pela cidade porque não achei quem trocasse R$10,00 (como diria minha bisavó, "ééérdaaaaaade..."), um calor de panela de pressão... consegui trocar os dinheiros, fui na lan house e fui ver os pessoal das educações... mais uma vez tudo correu pra lá de bem (acabou que não deu o resultado que eu esperava, mas that's fine)... fui pegar o rumo para a rodoviária e quandop cheguei no guichê o homem que estava na minha frente na fila invocou que queira uma passagem para MIAMI... e eu, "senhor, você pode comprar a passagem para onde o senhor quiser, mas primeiro eu preciso comprar a minha para Salvador"... e ainda na volta, o buzú veio socado, tava bombano, um happening! E... 5 horas depois eu tava em casa, mogado, mas super feliz: resolvi quase tudo que queria e ainda tive essas experiências estético-etnográficas transcedentais e libertadoras...
A viagem hoje foi mais tranqüíla... a aventura ainda ontem: imprimi alguns formulários, meu roteiro de viagem, minhas anotações, separei os cartazes do espetáculo, carreguei o celular. Acordei umas 4, mas só tive coragem de levantar umas 5. Tomei um banho, fiz uma comida bem leve (vitamina de iogurte com morango, mamão e mel), aliás, vai uma dica: antes de viajar o ideal é comer algo leve e beber muita água, assim o trajeto fica menos cansativo. Cheguei na rodoviária e descobri ter perdido o ônibus por alguns minutos... mas sem stress fiquei por lá lendo uma revista e ouvindo ora "Toots and The Maytals", uma banda de dub/reggae das Jamaicas, "Hard-Fi", uma banda indie britânica e a Velha Guarda da Portela (tudo a ver um com outro, mas tudo bem...).
O tempo voou... Quando o buzú chegou, vi sem surpresa que era daqueles de lata de sardinha, mas sem sofrimento entrei e me sentei e comecei a curtir a viagem. Ônibus comercial é sempre um lugar potencial para muitas histórias legais, tem uma rotatividade alta, passa por alguns bairros afastados e, como hoje foi dia de "fazer a feira", muita gente vai de uma cidade para outra próxima (ou nem tanto) na intenção de comprar barato. Logo no início, uma pessoa subiu e outra desceu em um bar (na verdade, um boteco de beira de estrada) chamado Farmácia Drinks (MUITO BOM O NOME!!!! E faz muito sentido: afinal, cachaça é remédio pra um monte de coisa, né?).
Sem pestanejar, corri e prontamente fotografei aquele bar com nome pitoresco. Uma pena que não estava cheio (será que alguma vez fica?). Passei pela aprazível cidade de Feira de Sanata, a Princesinha do Sertão (quem será o príncipe?). Cheguei aqui... de cara levei logo um fora da prefeitura... mas pelo menos o apoio dos artistas locais já garantiu a realização do evento. Tentei fechar um transporte aqui, mas acho que vou ficar com o de Salvador, é mais confiável, eu já trabalho com eles, é melhor e mais sensato. Agora eu tô mexendo em um projeto, no meu currículo lattes e editando meu blog. Blogar é viciante e também libertador... fora que diário de viagem é algo me pega mesmo! Vou ver se consigo agendar algo "na rádia" e se consigo faixas, mas não sei se dá! Tinha pedido a prefeitura... no mais é isso... continua quente pacas. Daqui a pouco eu fecho que vim fechar e vou "si picar" pra Salvador.
Verão Bahia Ponto Com... esse site é massa.
Direto de Serrinha
terça-feira, fevereiro 12, 2008
Elocubrado por Lucas às 4:01 PM 0 comentários
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Arte baiana: um espetáculo para cadeiras e paredes
domingo, janeiro 06, 2008
Sim, este missivista da província está de volta... se até quem é morto aparece, porque os vivos também não podem?! Dirrube a praca de acidente de trabalho na sua empresa, patuléia! ZERO DIAS SEM ACIDENTE COM AFASTAMENTO!
Salvador é uma cidade interessante, torna-se ainda mais interessante durante a noite nos redutos de boêmios e artistas. Parece-me impressionante que em cada esquina que vai do Rio Vermelho ao Santo Antônio, todos (pelo menos a maioria) os artistas nas mais variadas espécies (atores, diretores de teatro, instrumentistas, cineastas, arte-educadores, vídeo-artistas, artistas plásticos, fotógrafos, publicitários, compositores, produtores) concebem idéias incríveis sobre temas quaisquer, entre uma bebida e outra, a luz do mais vago possível. Essas idéias têm níveis de complexidade alterados à medida que o teor alcoólico, ou nível de efeito de entorpecentes, aumenta e diminui. São filmes, espetáculos de teatro, exposições fotográficas, trabalho artístico em periferias, resgate da cultura popular (ou da famigerada cultura de raiz, UGH!), democratização da cultura (este então é um filão!). Trata-se, enfim de idéias revolucionárias que trarão, contudo, fama e fortuna para os realizadores e porventura trarão melhorias a vida de todos os envolvidos, saciando a “sede de cultura e arte que existe nessa cidade envolta às trevas que é Salvador” (acreditem, eu já ouvi isso! se não quiserem acreditar não acreditem, ué...)
Para aqueles que nunca experimentaram uma noitada em um reduto boêmio, recomendo em doses altas sem contra-indicações: é uma ótima terapia! No mínimo pode ser uma incursão etnográfica igualmente terapêutica...
Com o passar das horas, e a chegada do dia (seriam os artistas na verdade vampiros que vieram da Romênia pra Salvador?), estas idéias brilhantes voltam para o lugar de origem: as gavetas mentais. Ficam acumulando poeira por toda a vida. Algumas vezes elas são ressuscitadas, em outra mesa, em outro bar, talvez sim, talvez não ¬¬
Mas nem só de idéias que ficam em gavetas vive a noite baiana! Alguns artistas e/ou produtores conseguem converter estas idéias brilhantes em projetos de fino trato e extremo bom gosto, mas inevitavelmente, o destino destes projetos é uma gaveta, de outra natureza, já não é mais a mental, mas uma gaveta real, em um escritório ou em um quarto. Os motivos são inúmeros, mas o principal argumento é que não basta só uma boa idéia na cabeça, nem um bom projeto nas mãos, mas articulação política para obter financiamento.
Há ainda um terceiro tipo de criatura noturna, o nem sempre bem-vindo artista que tem uma idéia não tão brilhante, um projeto de gosto posto em xeque, e que realiza ações não tão fantásticas nem transformadoras. Ele não tem boas idéias, mas conhece os mecanismos de financiamento de projetos culturais (Leis de incentivo, editais, seleções públicas, prêmios) e patrocínio e é aquela pessoa que sabe fazer, obviamente é aquela pessoa que tem uma circulação em ambientes privilegiados ou muita, mas muita cara-de-pau. Em geral o argumento utilizado para criticar o trabalho deste último ser, o "homo espertus totalis", é a sempre duvidosa qualidade do trabalho. Seja lá o que for e quem qualifique o quê... afinal todos são críticos de arte, futebol e ciência política sem sequer ter estudado uma única linha a respeito e são exímios críticos.
No carnaval, por inzêmprio, fica claro (ou pelo menos para aqueles que trabalham na área ou têm alguma informação sobre as leis de incentivo) que alguns blocos foram financiados pela lei federal, o que é legalmente possível, mas eticamente questionável e inclusive coloca em xeque a função da lei e as prioridades (e olha que hoje essa lei é milhões de vezes mais acessível, mas que los hay los "homo espertus totalis"... ah, com certeza!). Os blocos vendem abadá e podem receber patrocínio direto, afinal o dinheiro público deve permancer público! Ou a inversão de valores pode? Os povo só quer saber dos cartões coorporativos... não tá bunito, não...
Na verdade o que eu costumo questionar vai um pouco além disso, porque querendo ou não, com ou sem interesse público, a cultura emprega bastante (e ainda está com uma capacidade subaproveitada), no entanto como é que se orientam os critérios de pagamento? Afinal, um show tem roadies, técnicos de som e luz, eletricistas, diretores de arte, de criação, produtores executivos e por fim os coordenadores. Qual o valor justo para pagar um profissional da cultura? Até que ponto o enriquecimento na área é perverso? Não penso apenas nos desvios de verba em projetos culturais, que todos nós sabemos que existe (como em qualquer outra área, je suis très désolé, muchachos). Me refiro ao serviço prestado, para quem é oferecido, se há necessidade, se há interesse (anterior ou posterior) público e, principalmente, se há competência por parte do realizador. Este pensamento leva a um diálogo (chato) entre as questões legais, morais e éticas (eterno...). Independente de uma prestação de contas errada (seeeei ¬¬) ou de um projeto cultural faraônico ou proporcionalmente faraônico, o que carece de um critério objetivo quanto ao pagamento dos envolvidos em acordo com o porte do projeto. E o que vemos é justamente uma disparidade imensa entre os eventos e projetos mega e os eventos mini, inclusive uma escala inversamente proporcional no pagamento de equipe. Como assim? Quanto maior o projeto menos se paga aos prestadores de serviços mais pesados (e muitas vezes fundamentais). Em projetos pequenos, como o orçamento deve ser otimizado, não dá pra um coordenador ganhar 10, 20 ou 50 vezes mais... enfim...
O absurdo relativismo e subjetivismo com o qual são lidados determinados projetos me ofendia muito, hoje eu relaxei e relativizo também... haha
Outro ponto que sempre escuto é as boas idéias não são venais e que mesmo não comprando sapato, não se pode andar sem poesia. Aí chegamos em um dilema tolo, ou melhor, um falso dilema... procuramos o vilão errado no lugar errado e evitamos qualquer possibilidade remota de um diálogo e partimos para a caça às bruxas... Bons produtores, qualidade artística versus bons negociantes. Situação cômoda da maior parte dos produtores (sejam eles do grupo dos excluídos ou não) ou aqueles os empregos de repartição pública (seja de natureza cultural ou não)... ficam nas repartições e pegam umas migalhas do governo em editais e seleções para fazer um filme para passar na sala de casa para os amigos ou enviar pelas listas de discussão a sua master piece...
Como se resolve o problema? Não sei, se eu soubesse já tinha resolvido e ficado rico com a solução. Hoje, com a coisa pública mais transparente e a prioridade para projetos culturais menores (que pagam mais em relação aos grandes), as coisas já estão melhores. No cenário local ainda encontramos aberrações (e vamos encontrar sempre...). O que acredito que pode contrbuir é a criação de um circuito organizado e sistematizado de produção e consumo de arte e cultura e a busca pela independência das leis de incentivo: cara e coroa
A mídia: o demônio encarnado; Os produtores: Van Hellsing ou Buffy?!
É curioso que neste processo de produção de arte e cultura, aém dos artistas e produtores, mais duas entidades desempenham um papel fundamental: os media e os públicos. "A mídia" opera sempre colocando os produtores como pessoas de índole duvidosa e que buscam vida fácil, seja em seus veículos de informação ou nos de entretenimento: haja vista o filme "The Producers" e, aqui no Brasil, a nossa querida novela "Celebridade". O produtor e "a mídia" travam batalhas homéricas, um sempre ataca o outro e sempre tenta proteger o (suposto) ser mais frágil: os públicos
O público: vilão ou vítima?
Sempre se recorre a ele; é a causa de tudo! Temido e amado, o público, ou melhor os públicos (seja na cultura, na política ou na comunicação) é o ser mais evocado e menos conhecido, salvo algumas raríssimas exceções. O público é sempre suposto, não se pode prever o público antes, não se pode saber com certeza se o livro x ou y será um sucesso de vendas, mas pode-se analisar o contexto no qual o livro é lançado, determinados quadros de recepção, valores, comunidades interpretativas etc. Contudo, o público-alvo nada mais é do que uma extensão do chamado leitor-modelo de uma obra ou do consumidor-modelo de um produto. Suposto, mas nunca previsto, classificado, mas nunca conhecido. Claro, as ferramentas de análise de públicos e mercados são bastante eficientes e apontam para alguns sintomas, sinais, mas não dão conta do público, uma vez que são movimentos pessoais dispersos enquadrados em uma unidade (i.e estão todos assistindo ao mesmo filme na mesma sala, com idades próximas e moram próximos). Daí no ponto de vista de alguns artistas e produtores chegamos ao ponto forte: é preciso educar o público para que ele tenha liberdade de escolha (que liberdade é essa eu não sei, mas tudo bem... eu sou meio burro!) e possa se livrar das menitras da mídia e das garras dos "homo espertus totalis" e possa consumir produtos culturais de qualidade. blé...
As (péssimas) escolhas do público
Claro que nem todo o público é vítima da "globo": alguns tem formação escolar completa, nível superior, mestrado, doutorado, pós-doc... moram em bairros centrais, possuem carro próprio e grana para consumir a vida cultural da cidade (eventos pagos e gratuitos), mas ainda esses fazem as mesmas escolhas (erradas) do público dito mais "frágil". Como isso se explica? Também não sei, se eu soubesse já tinha explicado e ficado rico! E aí voltamos para a...
A pedagogia da arte e cultura
A pedagogia da cultura me irrita muito! Primeiro porque os argumentos de determinados artistas diante da cultura de massa ou da cultura popular sempre saem do mesmo lugar e para ele retornam: o descaso com o público e o desrespeito com o público. Uma estratégia muito baixa para vilanizar os dois outros pilares do mercado cultural (público e os media) e assim isentar-se de efetivamente fazer um trabalho... ah, não vamos esquecer do governo que é sempre o culpado por todos os três... E lá vamos nós na ciranda da cultura... troca de farpas, vernissages, muitos abraços, beijos, bebidas e idéias, muitas idéias, muita cultura e muita elocubração!
Bom, acho que já falei demais por hoje... mas eu gosto deste assunto e não falei nada ainda... foram apenas pensamentos soltos que eu fui tentando colar...
No mais, prefiro deixar os pés no chão... as boas idéias, como já disse, são terapêuticas, sonhar é bom e não custa muito dinheiro!
Idéias não brotam nas árvores, nem se colhe banana plantando batata, já diz a sabedoria de Itaparica
Elocubrado por Lucas às 12:53 PM 0 comentários
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