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Pensamentos aleatórios IV

segunda-feira, dezembro 05, 2016

Qualquer certeza, mesmo que frustrante, é melhor do que a angústia da dúvida. A certeza, do sim ou do não, liberta.

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Olhar os horizontes possíveis nem sempre é tarefa fácil, mas, não fazer isso é se permitir estagnar na vida. Os horizontes estão aí para ser pensados, olhados, admirados e os caminhos que levam a eles estão aí para ser percorridos.

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Sonhar é muito bom. Fato. Acordar, nem tanto... se acordar do sonho, quando o sonho é bom, não é a melhor das situações, ao menos isso é capaz de movimentar a vida (a minha e a de qualquer um, imagino); transforma as coisas, rompe velhas estruturas e abre o caminho para novos sonhos. É exatamente a frustração do horizonte de expectativas que torna únicas e especiais as experiências. É chato, mas é util.

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Todo mundo, quando diante do incerto e do confuso, descomplica para facilitar; eu já sou o oposto: complico diante do incerto e dou por difícil o mais simples. Pior é que quando eu acho que estou simplificando, é que complico mesmo.

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Gosto de ver pousos e decolagens.

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O saldo sempre é positivo. Mesmo que só depois, muito depois, se consiga entender de fato a natureza das coisas.

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Ser menos cruel consigo, diante das frustrações, também ajuda. Ser menos cruel consigo em qualquer situação, também ajuda bastante. Levei anos para entender isso.

Em Salvador....

sábado, dezembro 26, 2009

Tempo nublado e com cara de chuva... frio que me fez acordar cedo.

Mas é verão! Um sábado de praia... o que não deveria acontecer é ficar cinzento o céu de Amaralina. Se bem que desde ontem o céu está bem cinza e a brisa passou de fresca para fria. Não me incomoda - até gosto de um ventinho mais frio (para os padrões baianos, claro). As árvores (as poucas árvores de Amaralina) estão dançando, as cortinas da sala estão descontroladas. O prédio ao lado é de cor bege. Combinado ao ceú cinza faz tudo parecer a atmosfera de um sonho antigo. Nessa paisagem meio sem cor, apenas duas coisas teimam em ficar: uma camisa laranja na janela do apartamento vizinho e uma borboleta no muro do prédio ao lado. Todo o resto me remete a uma fotógrafia em sépia. Nessas horas, corre-se o risco de "quintanear" e assinar qualquer coisa com a data de 1774, já que fica a sensação de que tudo faz tanto tempo.

Hoje é dia de cuidar de coisas domésticas, sair com a família...

Ontem também foi um dia meio átipico, aliás, os dias desse ano podem ser descritos com essa palavra - para o bem e para o mal. 2009 pode ser descrito também, e pelo que percebi para muita gente além de mim, como o ano das encruzilhadas, de muito desencontro, reencontro, despedidas e encontros organizados pelo acaso. De desafios, de começos, recomeços, de confrontos. Um ano que pediu uma maturidade e jogou na minha cara (e na de muita gente) as limitações.... superar essas dificuldades ficou colocado como uma necessidade de sobrevivência e não como escolha. Seguir adiante, seguir sem medo é, como diz a amiga Juaquina, "tarefa quase impossível". Mas, no entanto, ficar é ainda mais doloroso.

Esse ano algumas de minhas certezas mais sólidas foram abaladas de modo profundo e minhas dúvidas saíram do estágio de fluidez e deslizamento para algo fixo. Líquido e certo.

Deus (ou como você preferir chamar sua Divindade predileta) abençoe quem inventou essa contagem (que mesmo boba) nos permite ordenar a vida em segundos, horas, dias, meses e anos, como se a passagem das horas pudesse ser medida por um relógio ou por um calendário, nos permite dizer que "ano que vem tudo será diferente, será melhor, mais feliz", nos permite ter esperanças e sonhos.

O ano que se mostra diante de mim, embora se exiba cheio de possibilidades em um nível quase narcotizante, já se apresenta, contudo, como algo passado, um amanhã que já é ontem. É tudo tão acelerado e tão cheio de luzes, brilhos, barulhos.... Por que nós aceleramos a nossa vida, como se acelerar resolvesse os problemas? Os carros devem ficar atrás dos bois.

O ano nem chegou e não sei se devo ter esperanças ou se devo desde já me decepcionar - ou criar esperanças falsas, temerosas. Prefiro ter as esperanças, mesmo que isso implique em pagar um preço mais alto, em me arriscar mais. De fato, a única certeza é que não dá pra ficar parado - a vida não espera. Já posso celebrar ter chegado até aqui em um ano tão cheio de reviravoltas, mudanças de rumo, quizilas, gíngis, consumições e tanficâncias. Quem sabe onde eu estarei daqui há um ano? Com quem? O que foi bom vai permancer aqui... mas há como saber precisamente o que é efetivamente bom ou ruim?

Os anos passados também viram tanta coisa passar (coisas boas, coisas ruins). Eu fui com eles, voltei com eles. Agora eu estou aqui.

Esse, repito, foi um ano que exigiu das pessoas superar problemas, vaidades, medos, vergonhas, limitações diversas, testou a humildade. Creio também que os preços serão cobrados em breve, assim como em breve virão as recompensas... as recompensas também cobram um preço, disso não se pode esquecer.

A encruzilhada está aí, não se pode ficar parado diante dela - afinal estamos vivos. Há quem pense que é a porta que escolhe o homem e que o caminho é sempre estreito, mas que alguns ficam cegos e enxergam-no como sendo largo. Há quem diga que é sempre o homem que escolhe o caminho. Há quem diga que não há caminho do meio. Há quem diga que só há o caminho do meio.

Não dá pra pensar, não dá pra respirar, só é permitido seguir em frente... sem nunca fechar as portas, mas sempre queimando as pontes. Sem ensaios, sem rascunho.

Eu vou ao seu encontro.

Ih, que fora...

quinta-feira, setembro 04, 2008


Todos conhecem e se relacionam muito bem com as situações mais constrangedoras, e por mais que saibamos que o constrangimento quase sempre é uma coisa mútua e relativamente normal - “ih, dei(deram) um fora... relaxe e esqueça...” -, se recuperar e continuar agindo de maneira normal é algo que demanda maturidade ou total falta dela talvez. Em geral pequenos ou grandes cuidados evitam enormes situações e bolas de neve de proporções homéricas. Aquela pergunte indiscreta, aquele comentário inoportuno, a colocação descabida ou aquele flagra fatal... Como eu disse, quase sempre são coisas bastante bobas: perguntar pelo(a) namorado(a) ou esposo(a) de alguém e descobrir que o relacionamento acabou (e de uma forma bem complicada e cheia de confusão), fazer algum comentário de uma figura bastante exótica e pitoresca e ouvir milésimos de segundos depois a frase “ela é minha mãe”, “ele é meu irmão”, “é o meu melhor amigo”, “ela é seu encontro às escuras”... Não vamos nos esquecer de falar mal de alguém (quase sempre na tentativa de ridicularizar ou fazer uma piada infame, necessariamente sem o intuito de ridicularizar). Estes próximos exemplos serão práticos e reais... isto é, aconteceram comigo... um dos candidatos a rei dos foras haha. Lembro de um, na minha sexta série: tive uma professora chamada Maria da Guia, apesar de morar no interior da Bahia, 'Da Guia, como era mais conhecida, era famosa entre os alunos pela sua postura rígida em sala – postura que lhe rendeu o carinhoso apelido de “Maria do Cão” (nota do blogueiro: crianças são criaturas cruéis demais, não!?) – e também pelo seu sotaque paraibano bastante forte – o que também lhe rendia imitações por parte dos alunos. Ah, as aulas de português com 'Da Guia... era um tal de “cúpia”, pra cá, “cúpia” pra lá... e outras coisas que eu já não me lembro. O fato é que uma vez tivemos aula de português em uma sala de outro chalé – sim, minha escola não tinha prédios, eram grandes chalés dividos em 5 ou 6 salas –, o chalé do segundo grau. Esse era, na época, top de linha, tinha ar condicionado nas salas (e olha que a cidade onde eu morei fazia um calor terrível!!!), as carteiras eram maiores e mais, digamos, anatômicas... era bem bacana. Beleza, acabou a aula, fui na cantina (ou na guerra, como eu pensava na época... ¬¬) e vi a filha de 'Da Guia, alguns anos mais velha do que eu. Palhaço do jeito que eu era (era?), eis que volto correndo pra sala e entro quase que de olhos fechados e grito: (com sotaque fingido de paraibano) “Vi a filha DÍ 'Da Guia na canTIna PIDINDU um ÍSPRÍITTTI”. Pura palhaçada... ninguém fala “ispriti”, já ouvi até “ispláti”, mas ispriti nunca... e mesmo que tenha gente que fale desse jeito, a menina era aluna do ensino médio... Eis que assim que termino de falar eu escuto “tu viste quem?”... Lembro apenas de encolher (literalmente... eu me agachei e saí andando murcho da sala balbuciando algumas palavras “très” sem graça hahaha.) E o pior é que estávamos ainda no meio do ano... Como enfrentar a vergonha? Cara-de-pau... O outro exemplo é mais recente, aliás, aconteceu ontem e é um outro pesadelo: durante a chamada eis que ouço a professora falando o nome de um aluno... “Lion” (Láion, mesmo). Na lata eu disse: massa, então quer dizer que temos um lion entre nós?” A resposta não poderia ser pior... meu colega apontou o dedo para a frente e disse, ele está aí do seu lado... puuuuuuuuxa, a vontade era de cuspir e sair nadando!... ou de me afogar, mesmo... Depois se esclareceu que o nome era outro (Laynon, se não estou errado). Ainda coroei (super sem graça!!!) dizendo que “não faria piadas infames, afinal você já deve estar cansado delas, né?”.... que bom que a aula acabou... mas o semestre não... brrrrrrrr... Agora, falando a partir do lugar do outro, digo que as coisas não são menos constrangedoras. Porque o clima cai na hora e não tem como evitar, nem dizer nada para amenizar. O jeito é esperar passar. Você está numa festa, por exemplo, vai no banheiro e quando abre a porta dá de cara com um casal bem numa situação de intimidade e depois descobre que são os pais de seu amigo... e aí? E o pior, ele está na fila esperando a vez dele. Pôôôôô... fazer o quê? E às vezes, a situação só piora: além de tudo você é um convidado e vai passar 10 dias na casa... Terrível! Terrível! O pior é que, em geral, esses foras são coisas comuns, mas nós somos tão travados que tudo vira motivo para um debate que sempre tende a chegar em “como a nossa mentalidade é pequeno burguesa e somos hipócritas...”. Já vi até um debate sobre ética e moral por causa de um fora! Imagina só? Não sei se o certo (ou mais fácil) é seguir os conselhos de Marta Suplicy, mas o fato é que estressar por conta dessas bobagens e desencontros rotineiros faz mal para o coração... o jeito é rir e se preparar para outra... porque ela certamente virá: impávida que nem Mohammed Ali...

Até breve. Até o próximo fora.

Selma, Vamos olhar para o futuro?

sábado, março 29, 2008

Listando as referências de obras que ajudaram a moldar minha personalidade (sim, se você não sabe, os filmes e livros transformam nossa vida: depois de um filme ou de um livro já não somos mais os mesmos... é sério!!), a associação foi quase automática. Mas para além dos "livros, discos e nada mais", o que posso destacar é um filme chamado "A Partilha", uma comédia dramática dirigida pelo Daniel Filho e baseada numa peça homônima do Miguel Falabela. A trama, para quem não conhece ou não lembra, gira em torno de quatro irmãs - Selma (Glóra Pires) , Lucia (Lília Cabral) , Regina (Andréa Beltrão) e Laura (Paloma Duarte) - reunidas por uma triste circunstância: a morte da mãe.


A partir da partida da mãe, durante a partilha dos bens, sobretudo o maior de todos - um apartamento antigo no Leblon -, enquanto refletem sobre os sonhos, frustrações, realizações e fracassos, as quatro desenham um retrato da geração pós-década de 70, pós-milagre econômico e do que aconteceu com as "esperanças de um país do futuro".

Essa descrição em tese deveria afastar o filme de um jovem de 22 anos (e que assistiu pela primeira vez aos 16 anos) que não viveu nenhuma dessas experiências, no enatnto, isso não aconteceu. O que me atraiu foi a direção primorosa de Daniel Filho, acrescida do texto sagaz de Falabela (além do sua marca registrada: timming super rápido e piadas com notas tragicômicas), as atuações convincentes e emocionantes das atrizes (inclusive, o exaustivo trabalho de ensaios garantiu que o filme fosse concluído em cinco semanas... e "de prima!", isto é, quase sem refazer as cenas).

O filme mostra o difícil acerto de contas entre 4 pessoas, outrora muito próximas, que tomaram rumos completamente diferentes na vida... talvez tenham sido sempre distantes, inclusive. No final das contas, elas conseguem superar as diferenças se mantém unidas.

Talves eu tenha visto no filme alguma semelhança com minha familia, ou pela ausência de uma família na época que eu assisti o filme pela primeira vez.
Enfim, tudo isso poderia justificar o gosto pelo filme, mas na verdade, na verdade, não foi só o filme que me atraiu... mas no ritual de familia (e de agregados que moravam em minha casa na época e depois dela) constituído para assistí-lo, e porque não dizer, para fruí-lo!

Era quase sagrado, sério! Chegou-se ao absurdo de comprar um kit de chá semelhante ao do filme, decorar diálogos... houve uma assimilação e uma identificação muito intensa entre a realidade fantástica da minha casa com a ficção... (eu realmente não sei qual era mais fantástica, se a realidade do filme ou se a realidade da minha casa!)

Assistíamos (e ainda assistimos) e damos risadas nas mesmas cenas, como se fosse a primeira vez... e as risadas são, como posso dizer, cumulativas... o filme já traz lembranças das lembranças e que são apenas isso: lembranças... Quando eu assisto acompanhado de minha mãe e meu irmão é como se a gente renovasse algum pacto tácito ou elo união.

Ainda sobre filmes, um outro decisivo na minha vida é "The Blues Brothers", do John Landis, escrito por ele e pelo Dan Akroyd. Perdi a conta de quantas vezes eu vi esses dois filmes!

The Blues Brothers, ou em português "Os Irmãos Cara-de-Pau" (associação meio tosca com "Os Irmãos Karamazov", mas tudo bem, eu relevo!), foi o primeiro filme que eu me lembro ter visto em toda minha vida. E logo eu, ainda infante, no auge dos meus 4/5 anos de idade (1989), sendo apresentado a nata da nata do blues, jazz e rhythm & blues: Cab Calloway, Aretha Franklin, Ray Charles, James Brown e ainda conferi "scoops" de figuras como Steven Spilberg e Carrie Fischer (ou Princesa Léa, pra quem não conhece/lembra), só para citar dois nomes entre a infinidade de personalidades do mundo pop que fizeram uma ponta no filme.

Claro que da primeira vez eu não captei as piadas nem as referências pop... mas se tem algo me ensinou a ser sarcástico, foram as aventuras de Jake e Elwood. A história do filme (por sinal, se você não conhece, trate logo de conhecer) gira em torno dos irmãos Jake e Elwood, líderes de uma banda de Blues, que partem numa missão divina: promover a reunião da banda, separada há alguns anos, para arrecadar fundos para o orfanato onde os irmãos foram criados, que corre risco de ser fechado por inadimplência com o Leão. No caminho, os irmãos colecionam fãs e inimigos, muitos inimigos... o filme tem uma das mais excitantes cenas de perseguição da história e reúne atos musicais igualmente excitantes (a trilha sonora é excelente! Escutar a trilha sonora do filme também é outro ritual de familia!).





Tudo no filme me empolgava: as músicas, as perseguições, os óculos escuros... esse filme me mostrou desde cedo como ser sarcástico e irônico. Este também é outro que foi ritualizado... assistir a este filme é voltar a um tempo especial e repetir um comportamento especial, quase sagrado. Claro que decoramos alguns diálogos... o melhor do que a ficção é o universo expandido da ficção, né? Estamos em família, estamos em casa... sem as nostalgias desnecessárias, essas não caem bem.





Para os novos agregados, os novos membros da nossa familia, assistir a esses dois filmes é uma obrigação!! Uma iniciação no clã... e o índice de insatisfação é "ingual" a zero... se a teoria dos campos sociais acertou em alguma coisa foi em afirmar que só andamos com os nossos pares... heheh.

Acho engraçado que eu vivi tanta coisa na minha adolescência (coisas boas e ruins, como todo adolescente)... gostava (ou achava gostar) de ser anti-careta (e/ou anti-familia), tentei me encaixar em tribos, me enquadrei, inclusive, e vivi uma infinidade de experiências dos mais variados tipos, no entanto, as coisas que deveriam (ou não?) ter me marcado mais, como as da escola, dos amigos da escola e das aventuras e desventuras, marcaram pouco ou nada marcaram... como bem diria a personagem Regina "...se você pensar na gente há tantos anos atrás vai ver que nada mais disso tem importância!"... as mais importantes foram as coisas que vivi longe da escola (em casa) e longe da minha cidade (nas férias, portanto, longe da escola). Em casa, era sempre uma festa, na ilha era sempre uma festa... na escola, sempre uma opressão discreta... mas nada disso tem mais importância, "vamos olhar para o futuro, Selma?"




Acho esquisito que entre ter assistido "A Partilha" e "The Blues Brothers" exista um lapso, uma espécie de abismo espaço-temporal. No vazio que os separa estou eu, ou melhor, eu versão adolescente hehe.
Eu me vejo numa boa, hoje, como versão 22.0 daquela criança que curtia TV Pirata e "The Blues Brothers", mas quando me olho aos 13, 14 e 15 anos, não me reconheço direito... mas talvez isso seja normal... tudo que é muito próximo acaba ficando meio embaçado... talvez em alguns anos eu entenda melhor como foram as coisas...

Construir uma ponte entre eles não foi fácil... mas quem quer o fácil?! Se entre o número 1 e o número 2 existe um abismo infinito, imagine entre os anos?

Já passa da hora e o sono não chega... dalmadorm, where are you?....
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Estava pensando

segunda-feira, março 20, 2006

Quem curtiu ou curte animes já assistiu, leu ou ficou sabendo de um seriado que se apresenta como inteligente, cult e filosófico: Neon Genesis Evangelion. Toda a pompa: crianças pilotando máquinas maga-poderosas, conflitos psicológicos de todas as ordens, distúrbios, e uma história aparentemente tola - aliás, aparente não... basta você apertar um pouco que logo ela fica superficial, esses japoneses não sãoi melhores que os outros! - que gir a em torno de um adolescente (hã), que foi abandonado pelo pai (hã-hã), e se vê envolvido em uma ação militar para proteger o planeta do ataque de seres denominados anjos e vieram promover o apocalipse (humpf! mas fazendo um esforço dá pra se distrair, tem seqüências de luta bem legais, não é uma brastemp padrão exportação, mas da pra assistir, só não é o melhor, aliás passa bem longe disso!). A série se desenrola e a gente descobre que há uma conspiração do governo na intenção de criar um Deus humano. Tá você nunca viu isso antes?! Mas o que me fez pensar não foi ter assistido um episódio desse desenho, que assisti há mais de 5 ou 6 anos... mas estou um pouco preocupado porque a ficção científica, passando por Blade Runner, Mad Max, Matrix, Ghost in The Shell e histórias do mesmo naipe, até mesmo 1984, apresentam uma comunidade global manipulada pela técnica, pelos artefatos, nos mostram sem privacidade, nos mostram presos, com um detalhe: a aparente liberdade, segurança, a possibilidade de escolha. Não é assim, por exemplo com a internet? Há 10 (primeiro boom da rede no Brasil), 15 anos atrás, se pensava que a rede mundial era shangri-lá, anarquista, sem controle, sem repressão, sem fiscalização, um lugar onde haveria a possibilidade em se permancer anônimo. Hoje, manos de 20 anos depois percebo que a rede se transformou no oposto disso: é por meio dela que somos vigiados, seja pelo governo, pelas empresas que nos empregam, por quem quer que seja. Somos bombardeados com propagandas, vírus, que estão a um passo de nos infectar... imagino que quando surgirem os biotransmissores. Será que vão poder formatar até o nosso cérebro?
Já foi criado um novo deus: o Google, onipresente, oniciente, para onde converte toda a informação. Temos também os rebeldes, os cyberpunks; há uma batalha silenciosa que vez por outra acaba esbarrando em alguém.
Estamos na sociedade da informação e da comunicação... os cabos, as fibras ópticas, os backbones, os processadores, os satélites... há uma busca infinita em não estar só, em reduzir o mundo ao tamanho do quarto ou da sala, o tamanho do mundo intimida, intimida ainda mais o infinito do universo, navegamos numa nave tão pequena... de medo nós construímos nosso próprio infinito: a internet... zeros e uns que se somados se igualam às estrelas do céu... tem os até estrelas que morreram e continuam brilhando. Como? E o cache dos buscadores? Há sites que se extinguiram há mais de um ano, já vi um site no cache do google de 1998, uma notícia do Estado de São Paulo, uma matéria da Caros Amigos sobre umas conferências que o Lula realizou numa universidade francesa... Até onde isso vai chegar? Me pergunto se vamos chegar ao nível das histórias de science fiction que eu passei a infância, a adolescência e até hoje (com bem menos intensidade) curtindo. A tecnologia inspira essa dicotomia de demonização e sacralização. Ainda acho que o preocupante não é um computador tornar-se um organismo vivo e independente, mas os organismos vivos hodiernos, afinal o único lobo do homem é o próprio homem. O mundo está cada vez menor, e os problemas parecem insistir crescendo.